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Por que os japoneses comem KFC no Natal
No Japão, a ceia de Natal de muitas famílias é um balde de frango do KFC. Veja como uma campanha de 1974 virou tradição e o que esperar em dezembro.
Na véspera de Natal, no Japão, uma das filas mais longas não fica na porta de uma igreja nem de um shopping, e sim na de uma lanchonete de frango frito. Para muitas famílias japonesas, a ceia de 24 de dezembro é um balde do KFC. Segundo a própria empresa, esse é o dia mais movimentado do ano no país, com um volume de vendas dez vezes maior que a média anual.
A tradição não tem nada de religiosa. Estima-se que só cerca de 1% dos japoneses seja cristão, e o Natal nem é feriado por lá. O costume nasceu de uma campanha publicitária, lançada em 1974, que colou tão bem que virou parte do calendário.
Um Natal sem tradição à mesa
O Japão começou a comemorar o Natal como festa de fim de ano no fim dos anos 1960. Segundo o KFC, as famílias passaram a fazer festinhas em casa depois que fabricantes de doces começaram a vender bolos e guloseimas natalinas para as crianças. Era uma comemoração importada, sem um prato típico definido.
O KFC abriu a primeira loja no Japão em 1970, em Nagoya, no mesmo ano em que redes americanas de fast-food testaram o mercado na Exposição Mundial de Osaka. Quatro anos depois, a empresa lançou a primeira campanha de Natal: um balde de frango frito acompanhado de uma garrafa de vinho, vendido como a refeição de uma festa que não era só para as crianças, mas também para os adultos.
A versão contada pela própria empresa é que a ideia surgiu de um comentário ouvido numa loja de Tóquio, no dia de Natal. Um cliente estrangeiro teria dito que, sem conseguir encontrar peru no Japão, não tinha outra saída a não ser comemorar com frango do KFC. Um funcionário da área de vendas ouviu a frase e a transformou em slogan: “Kurisumasu ni wa Kentakkii”, ou “No Natal, Kentucky”.
Por que deu tão certo
A campanha preencheu um espaço vazio. O Natal japonês não tinha uma ceia tradicional, e o frango frito, servido num balde para dividir, ocupou o lugar que o peru ocupa nos Estados Unidos. A mensagem nunca mudou. Um executivo da agência de publicidade Ogilvy no Japão resumiu assim ao jornal Financial Times, citado pela revista Smithsonian: a campanha durou tanto porque dizia sempre a mesma coisa, que no Natal se come frango. Segundo a mesma reportagem, o apelo estava menos na religião e mais no “jeito americano” e na simplicidade da mensagem. O Japão é conhecido por pegar produtos e ideias estrangeiras e adaptá-los ao gosto local, e o Natal japonês virou uma festa comercial, sem caráter religioso, em que se gasta bastante com enfeites, jantares e presentes.
Com o tempo, o ritual ganhou detalhes. As estátuas do Coronel Sanders na porta das lojas são vestidas de Papai Noel. Há um frango assado especial, de produção local, recheado com queijo e cogumelos e assado na própria loja, feito só nessa época. O balde de festa muda de desenho a cada ano e vem com um prato comemorativo dentro. E as encomendas começam cedo: a empresa passa a anunciar e a aceitar reservas para o Natal já no fim de outubro.
E a sobremesa: o bolo de Natal
O frango é a metade salgada da ceia. A metade doce é o bolo de Natal, a "kurisumasu kēki", e ela chegou ao Japão bem antes do KFC.
A história passa pela Fujiya, confeitaria de Yokohama que depois virou uma grande fabricante de doces, dona da mascote Peko-chan. Segundo o histórico oficial da empresa, o confeiteiro Rinemon Fujii, então com 25 anos, abriu a primeira loja da Fujiya em 1910, no bairro de Motomachi, e ainda naquela década lançou os bolos de Natal. Em 1922, a Fujiya abriu uma segunda loja, também em Yokohama, e produtos como a bomba de creme e o bolo de morango com chantili, o shortcake, fizeram sucesso.
Com o tempo, o bolo de morango com chantili se tornou o bolo de Natal mais comum no Japão, segundo o site Japan Today. Com a popularização do Natal nas décadas seguintes, as confeitarias e os fabricantes de doces passaram a vender bolos e guloseimas para as festas das crianças. Foi nesse terreno, segundo o próprio KFC, que a campanha do frango encontrou espaço, oferecendo uma refeição para os adultos também.
Hoje, frango frito e bolo de morango formam o par clássico da ceia japonesa. Ninguém precisa escolher entre os dois.
A fila da véspera
Quem não reserva enfrenta fila. Em 2012, a Smithsonian relatou esperas de até duas horas na véspera de Natal, com funcionários de escritório e até diretores da empresa indo para as lojas ajudar no atendimento. Para os japoneses, a data importante é o dia 24: o 25 é um dia de trabalho comum.
Na prática
- Se quiser provar a tradição, encomende antes. As reservas abrem no fim de outubro.
- Evite o dia 24 sem reserva. É o dia de maior movimento do ano, e a fila pode ser longa.
- Não conte com feriado no dia 25. O comércio e os escritórios funcionam normalmente.
- Aproveite a iluminação. Mesmo sem ser feriado, as cidades japonesas se enfeitam para o Natal, e bairros como Shibuya, em Tóquio, ganham luzes especiais.
- Prove o bolo de morango. É a sobremesa típica do Natal japonês, e as confeitarias costumam aceitar encomendas.
Perguntas frequentes
Por que os japoneses comem KFC no Natal?
Por causa de uma campanha publicitária de 1974, "No Natal, Kentucky", que ofereceu frango frito como ceia de uma festa que ainda não tinha prato típico no Japão.
O Natal é feriado no Japão?
Não. O dia 25 de dezembro é um dia de trabalho comum. A data mais importante é a véspera, o dia 24.
Precisa reservar o KFC para o Natal no Japão?
É o mais seguro. A empresa aceita reservas a partir do fim de outubro, e o dia 24 é o mais movimentado do ano, com vendas dez vezes maiores que a média.
Qual é a sobremesa do Natal japonês?
O bolo de morango com chantili, a "kurisumasu kēki". A confeitaria Fujiya vende bolos de Natal desde a década de 1910.
Quantos japoneses são cristãos?
Cerca de 1%, segundo a estimativa citada pela revista Smithsonian. O Natal japonês é uma festa comercial, sem caráter religioso.
Se for sua primeira viagem ao país, vale ler também por que dar gorjeta no Japão pode constranger quem recebe. Um balde de frango, afinal, é bem menos estranho para os japoneses do que uma nota deixada na mesa.
Fontes
- How “Kentucky for Christmas” began in Japan, KFC, 2020: a campanha de 1974, a versão da empresa sobre a origem, o dia 24 como o mais movimentado, as reservas a partir de outubro e os itens de Natal.
- Why Japan Is Obsessed With Kentucky Fried Chicken on Christmas, Smithsonian Magazine, 2012: a estimativa de 1% de cristãos, o slogan, a primeira loja em Nagoya, a Expo de Osaka, as filas e a declaração do executivo da Ogilvy.
- History, Fujiya: a primeira loja em Yokohama em 1910, o lançamento dos bolos de Natal e o sucesso do shortcake na loja aberta em 1922.
- Christmas cake in Japan: An affectionate history, Japan Today: o bolo de morango como o bolo de Natal mais comum no país.