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Por que a maioria das ruas do Japão não tem nome

No Japão, o endereço aponta para um quarteirão, não para uma rua. Veja como funciona o sistema e como achar um lugar em Tóquio sem se perder.

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Rua estreita entre prédios de apartamentos no bairro de Meguro, em Tóquio, ao pôr do sol
Foto de Monineath Horn no Unsplash

Pergunte a alguém em Tóquio o nome da rua onde mora e há uma boa chance de a pessoa não saber responder. Não é distração. Na maior parte do Japão, a rua simplesmente não tem nome. As grandes avenidas têm, e algumas ruas comerciais também, mas as vielas por onde a maioria das pessoas chega em casa são só espaços entre quarteirões.

Para quem cresceu com “Rua Tal, número 120”, isso parece receita para o caos. Na prática, o sistema funciona, só que a partir de outra lógica: o endereço japonês descreve uma área, não uma linha.

O endereço vai do maior para o menor

Um endereço no Japão começa pela província e desce, camada por camada, até o prédio. Depois da cidade e do bairro vêm três números, que costumam aparecer juntos, separados por hífen, como 2-14-5:

  • chōme: uma subdivisão do bairro, numerada;
  • banchi: o quarteirão dentro dessa subdivisão;
  • gō: o número do prédio dentro do quarteirão.

Então “2-14-5” quer dizer: segunda subdivisão, quarteirão 14, prédio 5. A rua não aparece em lugar nenhum porque não precisa aparecer. O quarteirão é a unidade que importa.

Um exemplo real ajuda. O endereço da Agência Central dos Correios de Tóquio é Chiyoda-ku, Marunouchi 2-7-2. Chiyoda é o distrito; Marunouchi é o bairro; 2 é o chōme; 7 é o quarteirão; e 2 é o prédio. Em apartamentos, o número da unidade entra no fim, depois de mais um hífen: 5-10-103 é o apartamento 103 do prédio 10 do quarteirão 5.

O código postal vem na frente

Todo endereço japonês tem também um código postal de sete dígitos, no formato 123-4567, adotado numa reforma de 1998. Ele costuma vir antes de todo o resto, precedido do símbolo 〒, que indica justamente que o número seguinte é um código postal.

Quando o endereço é escrito em japonês, a ordem é a da lista acima: do maior para o menor. Quando é escrito em alfabeto latino, para estrangeiros, a ordem costuma se inverter e ficar parecida com a ocidental, começando pelo número do prédio. Os dois formatos convivem, e é comum ver o mesmo endereço escrito dos dois jeitos.

A numeração não segue a ordem que você espera

A ordem dos números é o que mais confunde. Em muitas áreas, os números dos prédios seguem um sistema criado por uma lei de 1962, que numera as entradas dando a volta no quarteirão, em sentido horário. Dois prédios vizinhos podem ter números consecutivos, mas o prédio do outro lado da rua pertence a outro quarteirão e tem uma numeração que não conversa com a sua.

Nas áreas que nunca adotaram esse sistema, é pior. Ali, o número vem do registro do lote no cadastro de terras, e lotes vizinhos podem ter sido registrados em épocas bem diferentes. O resultado é o número 12 ao lado do 3, com o 7 escondido duas quadras adiante.

Kyoto faz diferente

Kyoto é a exceção mais conhecida. O centro da cidade foi traçado em grade, inspirado no modelo das capitais chinesas, e as ruas dessa grade têm nome. Por isso os endereços de lá costumam citar um cruzamento e dizer para que lado seguir a partir dele:

  • agaru: subindo, ou seja, para o norte;
  • sagaru: descendo, para o sul;
  • higashi-iru: entrando para o leste;
  • nishi-iru: entrando para o oeste.

Um endereço em Kyoto pode soar como uma instrução de caminhada: vá até o cruzamento de tal rua com tal rua e suba. Para quem está visitando, é mais intuitivo do que o sistema de quarteirões de Tóquio.

O curioso é que esse não é o sistema oficial. Kyoto também usa, no papel, a divisão nacional em bairros e lotes. Só que os bairros oficiais de lá são muito pequenos e numerosos, e às vezes há mais de um com o mesmo nome dentro do mesmo distrito. A confusão é tanta que os moradores preferem o sistema de ruas, e os correios e os órgãos públicos o aceitam.

Sapporo, a cidade em tabuleiro

A outra exceção fica no norte, em Hokkaido. Sapporo tem o centro traçado em grade e um sistema de endereços oficial próprio. Duas vias que se cruzam no centro dividem a cidade em quatro partes, e cada quarteirão é identificado pela distância até esse ponto: o jō conta os quarteirões na direção norte-sul, e o chōme, na direção leste-oeste.

O endereço da JR Tower, o complexo da estação central, é Kita 5-jō Nishi 2-chōme: quinto quarteirão ao norte, segundo a oeste. Com um pouco de prática, o endereço diz exatamente onde o prédio fica no mapa.

Como as pessoas se acham

Antes do celular, os japoneses resolviam o problema de três formas, e todas continuam em uso.

A primeira são as placas. Postes e muros exibem plaquinhas com o chōme e o banchi daquele ponto, e perto das estações costuma haver um mapa do bairro com os quarteirões numerados. Com o número na mão, dá para ir conferindo as placas até chegar.

A segunda é o kōban, o pequeno posto policial de bairro. Segundo a Agência Nacional de Polícia do Japão, há cerca de 6.300 kōban no país, além de uns 6.300 chūzaisho, os postos com policial residente, comuns nas áreas rurais. Os policiais conhecem a região de cor, têm mapas detalhados e passam boa parte do dia explicando caminhos. Pedir direção num kōban é tão normal quanto pedir numa padaria aqui.

A terceira é o mapa desenhado. Lojas, restaurantes e consultórios costumam colocar no site ou no cartão um mapinha com a saída da estação mais próxima e os pontos de referência do trajeto. Um convite de festa pode vir com o mesmo tipo de desenho.

O que isso muda para quem viaja

Hoje o celular resolve quase tudo, mas vale saber algumas coisas antes de ir:

  • Copie o endereço completo, com os três números. Só o nome do bairro não basta.
  • Anote também a estação mais próxima e o número da saída. Estações grandes de Tóquio têm dezenas de saídas, e sair pela errada pode custar dez minutos de caminhada.
  • Se o GPS se perder entre prédios altos, procure as placas nos postes e compare os números.
  • Em caso de dúvida, o kōban mais próximo é a melhor ajuda que existe.
  • Guarde o código postal junto com o endereço. Colado num aplicativo de mapas, ele já leva você para perto do lugar certo.

Perguntas frequentes

As ruas do Japão têm nome?

As grandes avenidas e algumas ruas comerciais têm, mas a maioria das ruas não. O endereço japonês identifica quarteirões, não ruas.

Como ler um endereço japonês?

Do maior para o menor: província, cidade, distrito, bairro e três números, como 2-14-5, que indicam o chōme, o quarteirão e o prédio.

Por que Kyoto usa nomes de ruas?

Porque o centro foi traçado em grade, e os bairros oficiais são tão pequenos que confundem. Os moradores usam cruzamentos e direções, e os correios aceitam esse formato.

Onde pedir ajuda para achar um endereço no Japão?

No kōban, o posto policial de bairro. Há cerca de 6.300 deles no país, e explicar caminhos faz parte da rotina dos policiais.

Depois de alguns dias, o sistema começa a fazer sentido. Você para de procurar a rua e passa a procurar o quarteirão, que é como o endereço japonês foi pensado. Do outro lado do mundo, a Costa Rica resolveu o mesmo problema de outro jeito: lá, o endereço começa num ponto de referência.

Fontes