Suíça tem abrigo antiaéreo para cada morador
A Suíça tem cerca de 370 mil abrigos e 9 milhões de vagas, mais que sua população. Como funciona a regra, para que servem hoje e onde fica o turista.
Na Suíça, a regra é ter um abrigo para cada morador. E o país cumpre: são cerca de 9 milhões de vagas em aproximadamente 370 mil abrigos públicos e privados, o que dá uma cobertura de mais de 100% da população, segundo o Escritório Federal de Proteção da População.
A maioria fica no porão de prédios e casas comuns. Quem se hospeda num apartamento alugado na Suíça pode estar dormindo em cima de um.
Por que a Suíça tem tantos abrigos
A obrigação vem da Guerra Fria. As primeiras normas sobre o tema foram aprovadas em 4 de outubro de 1963, e a maior parte dos prédios construídos no país desde os anos 1960 tem um abrigo, segundo a Swissinfo. A lei de proteção civil determinava que todo habitante tivesse um lugar protegido que pudesse alcançar rapidamente a partir de casa.
Os abrigos foram pensados principalmente para o caso de conflito armado. Eles têm de resistir a armas modernas, o que significa proteger contra agentes nucleares, biológicos e químicos e contra explosões próximas de armas convencionais.
Como é um abrigo suíço por dentro
O governo descreve os abrigos como construções espartanas, feitas para custar pouco e ocupar pouco espaço. O essencial é a proteção.
A estrutura é uma caixa de concreto armado no subsolo, com portas blindadas. Há uma saída de emergência ou um túnel de fuga, para o caso de o prédio desabar sobre a entrada. Um sistema de ventilação com filtro de gás garante o ar. Os donos têm de guardar camas e vasos sanitários químicos para os ocupantes.
Adega, depósito, sala de jogos
Como nunca precisaram ser usados para a finalidade original, os abrigos viraram parte da casa. A lei permite usá-los no dia a dia como depósito, porão, oficina, sala de brinquedos ou arquivo, desde que ninguém mexa nas paredes, nas portas blindadas ou na ventilação.
Uma reportagem da Swissinfo de 2009 contou a cena típica: um amigo italiano, em visita, estranhou a porta de aço reforçado no porão de um prédio suíço. Lá dentro, havia garrafas de vinho, livros velhos, um freezer e roupas sem uso.
Se o governo der a ordem, os donos têm cinco dias para esvaziar e preparar o abrigo. As instalações passam por inspeção pelo menos a cada dez anos.
E o turista?
Aqui está o detalhe que pouca gente conhece. O planejamento dos abrigos é feito com base na população residente permanente, ou seja, quem mora no país há mais de um ano. Turistas e pessoas sem residência fixa não estão previstos, segundo o próprio Escritório Federal de Proteção da População.
O governo diz que, numa emergência, haveria esforço para abrigar todos os que procurassem vaga. E lembra que alguns destinos turísticos têm cobertura bem acima de 100%.
Cada morador tem, em princípio, uma vaga prevista num abrigo específico. A lista de quem vai para onde é feita pelos cantões e municípios, e não costuma ser publicada, porque muda o tempo todo com mudanças, nascimentos e mortes.
Prédios novos: a regra mudou
Hoje, prédios novos só precisam ter abrigo em casos específicos, como grandes condomínios a partir de 38 cômodos. Quando um prédio novo não tem abrigo, o proprietário paga uma taxa de compensação, e esse dinheiro financia os abrigos públicos do município.
Os abrigos também envelhecem
Muitos abrigos têm décadas, e isso tem consequência. Segundo o Escritório Federal de Proteção da População, depois de 40 anos os sistemas de ventilação e filtragem dos abrigos pequenos precisam ser trocados, porque perdem eficiência. Operar abrigos pequenos no país inteiro não faz sentido nem econômico nem de organização, e por isso há anos não se constroem mais abrigos pequenos, aqueles de até sete lugares.
O governo diz que não pretende acabar com todos eles. A decisão é caso a caso: vale a pena manter aquele abrigo, ou é melhor mandar os moradores para vagas num abrigo público?
Os cantões também podem cancelar abrigos. Isso acontece quando eles deixam de cumprir os requisitos básicos, quando atrapalham demais a reforma de um prédio antigo, quando ficam numa área de risco grave ou quando sobram vagas na região. O dono que quiser pode manter o abrigo mesmo depois de ele sair do planejamento oficial, e, numa guerra, pode escolher usá-lo em vez da vaga pública.
Na prática
- Em apartamento alugado, a porta pesada no porão provavelmente é a de um abrigo. Não mexa nos equipamentos de ventilação.
- O turista não tem vaga prevista, mas alguns destinos turísticos têm vagas de sobra.
- Quer saber onde fica o abrigo da sua região? A informação é dada pela proteção civil do município ou do cantão.
Perguntas frequentes
É verdade que toda casa na Suíça tem bunker?
Não toda casa, mas a maioria da população mora em prédios com abrigo próprio. Quem não tem conta com abrigos públicos por perto. No total, são cerca de 9 milhões de vagas.
Quantos abrigos existem na Suíça?
Cerca de 370 mil abrigos públicos e privados, com aproximadamente 9 milhões de vagas.
Turistas têm vaga nos abrigos suíços?
Não estão incluídos no planejamento, que considera só os residentes permanentes. Numa emergência, o governo diz que tentaria abrigar todos.
A Suíça ainda constrói abrigos?
Sim, mas menos. Hoje, prédios novos só precisam de abrigo em casos específicos, como grandes condomínios, e abrigos pequenos deixaram de ser construídos há anos. Sem abrigo, o dono paga uma taxa que financia os abrigos públicos.
Para que os suíços usam os abrigos hoje?
Como depósito, porão, adega, oficina ou sala de brinquedos. Em caso de ordem do governo, eles têm de estar prontos para uso em cinco dias.
A Suíça tem outras regras de convivência que viram lenda entre turistas, como a suposta proibição de dar descarga à noite.
Fontes
- Shelters for the population, Escritório Federal de Proteção da População (BABS), 10 de setembro de 2026: o número de abrigos e vagas, a estrutura, o uso no dia a dia, o prazo de cinco dias, as inspeções, a distribuição das vagas, a situação dos turistas e as regras para prédios novos.
- Bunkers for all, Swissinfo, 3 de julho de 2009: as primeiras normas de 1963, o texto da lei de proteção civil e o abrigo usado como porão.