Destinos fora do óbvioBélgica e Países Baixos

Baarle: a cidade onde a fronteira passa dentro das casas

Em Baarle, Bélgica e Países Baixos se misturam em dezenas de enclaves. A fronteira corta casas, cafés e lojas, e a porta da frente define o endereço.

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Casa de tijolos na rua Loveren, em Baarle, com as bandeiras da Bélgica e dos Países Baixos e a linha da fronteira marcada no calçamento
Foto de Hassan Anayi no Unsplash

Em Baarle, dá para sentar num café com um pé na Bélgica e o outro nos Países Baixos. A cidade fica no sul holandês, mas está salpicada de pedaços de território belga, e a fronteira entre os dois países passa pelo meio de ruas, calçadas, casas, cafés e lojas.

No mapa, parece um erro. Na prática, são dois municípios ocupando o mesmo lugar: Baarle-Nassau, holandês, e Baarle-Hertog, belga.

Quantos enclaves existem em Baarle

Baarle-Hertog é formado por 26 pedaços de terra. Quatro deles se ligam ao resto da Bélgica. Os outros 22 são enclaves belgas completamente cercados por território holandês.

E a coisa não para aí. Dentro desses enclaves belgas existem sete enclaves holandeses, ou seja, pedaços dos Países Baixos cercados pela Bélgica, que por sua vez está cercada pelos Países Baixos. Seis deles ficam dentro do maior enclave belga.

Para ninguém se perder, a fronteira é marcada no chão com cruzes brancas e as letras B e NL. Plaquinhas com as bandeiras dos dois países aparecem em postes e acima das portas, segundo uma reportagem do jornal britânico The Telegraph.

Por que a fronteira de Baarle é assim

O quebra-cabeça vem da Idade Média. Os senhores de Breda e os duques de Brabante trocaram, venderam e dividiram lotes de terra por séculos. Quando a fronteira entre a Bélgica e os Países Baixos foi fixada, no Tratado de Maastricht de 1843, esses lotes viraram fronteira nacional do jeito que estavam.

Um retângulo de terra agrícola continuou em disputa até 1995, quando foi atribuído à Bélgica, segundo o Telegraph.

A porta da frente decide o país

Quando uma casa fica em cima da linha, vale a regra da porta da frente: o endereço fica no país onde está a entrada principal. Isso tem consequência. Segundo o Telegraph, há moradores que mudaram a porta de lugar para ficar do lado onde se paga menos imposto.

Para comércios cortados pela fronteira, a solução é outra. Uma empresa cujo imóvel está nos dois países paga imposto sobre o lucro aos dois governos, na proporção dos metros quadrados de cada lado. Numa brasserie da praça central, as mesas da calçada ficam presas ao chão um pouco para dentro do lado holandês. Segundo o dono, por causa dos impostos.

Os enclaves que salvaram belgas na Primeira Guerra

A geografia maluca já fez diferença de verdade. Na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha ocupou a Bélgica, mas os Países Baixos eram neutros. Para chegar aos enclaves de Baarle-Hertog, o exército alemão teria de atravessar território holandês, e o governo holandês não permitiu.

Esses pedaços da Bélgica viraram refúgio. Segundo o verbete da cidade na Wikipédia, um transmissor de rádio clandestino foi levado para lá e usado pela resistência belga.

Tudo em dobro

Dois países no mesmo lugar significam duas estruturas de governo. Segundo o Wikivoyage, em Baarle quase tudo existe em dobro: duas igrejas, duas prefeituras, duas agências de correio, dois corpos de bombeiros e duas polícias, que hoje dividem o mesmo prédio.

Para os moradores, isso virou normalidade. O visitante percebe a diferença nos detalhes: as bandeiras ao lado dos números das casas, as placas que marcam cada enclave e os comércios que escolhem de que lado ficar.

O que se faz em Baarle hoje

Com a União Europeia e o espaço Schengen, a fronteira deixou de ter controle. O contrabando, que foi tradição local por séculos, perdeu sentido depois do mercado único europeu, de 1993.

Hoje, o movimento é de turistas e de gente atrás de preço. Na época da reportagem do Telegraph, a gasolina custava cerca de 50 centavos de euro a menos por litro do lado belga, e havia fila de carro nos postos. Muita gente também vai só para tirar a foto clássica, com uma perna em cada país.

Como visitar

O ponto de partida é o escritório de turismo, na Singel 1, em Baarle-Nassau, ligado aos órgãos de turismo dos dois países. Segundo o Visit Brabant, órgão de turismo da província holandesa, a cidade fica no triângulo entre Tilburg e Breda, nos Países Baixos, e Turnhout, na Bélgica.

O jeito mais fácil de entender o quebra-cabeça é seguir a rota Enclave Experience. São 7 quilômetros, a pé ou de bicicleta, passando por doze placas de enclaves no centro da cidade. Também há passeios com guia, que explicam a história dos enclaves e cruzam a fronteira várias vezes.

Para chegar, dá para ir de carro pelas rodovias provinciais que passam pela cidade. Quem vem da Bélgica pode pegar o ônibus 46 da empresa De Lijn, segundo o Wikivoyage.

Na prática

  • Onde fica: no sul dos Países Baixos, perto da cidade de Breda.
  • Por onde começar: pelo escritório de turismo e pela rota Enclave Experience, de 7 quilômetros.
  • O que procurar: as cruzes brancas no chão, as bandeiras acima das portas e a numeração das casas, que em algumas ruas recomeça quando se passa para o lado belga.
  • Documento: não há controle de fronteira entre os dois países, mas leve o passaporte, como em qualquer viagem pelo espaço Schengen.

Perguntas frequentes

Baarle fica na Bélgica ou nos Países Baixos?

Nos dois. Baarle-Nassau é um município holandês, e Baarle-Hertog é um município belga formado por enclaves espalhados dentro do território holandês.

Quantos enclaves tem Baarle?

São 22 enclaves belgas dentro dos Países Baixos e sete enclaves holandeses dentro desses enclaves belgas.

Como se sabe em que país está uma casa em Baarle?

Pela porta da frente. O endereço fica no país onde está a entrada principal do imóvel.

O que fazer em Baarle?

Seguir a rota Enclave Experience, de 7 quilômetros, que passa por doze enclaves, procurar as marcas da fronteira no chão e fazer a foto com um pé em cada país.

Precisa de passaporte para ir de um lado ao outro?

Não há controle de fronteira, porque Bélgica e Países Baixos fazem parte do espaço Schengen.

Outra fronteira curiosa entre dois países europeus fica no rio Bidasoa: a Ilha dos Faisões passa seis meses sendo espanhola e seis meses sendo francesa.

Fontes

  • Europe's weirdest border – where locals move their front doors to pay less tax, The Telegraph (republicado pelo Yahoo): as marcas da fronteira, o Tratado de Maastricht, a área disputada até 1995, os impostos de comércios divididos, as mesas do café e a diferença no preço da gasolina.
  • Baarle-Hertog, Wikipédia: o número de enclaves belgas e holandeses, a origem medieval da fronteira e o papel dos enclaves na Primeira Guerra Mundial.
  • Baarle, Wikivoyage: a regra da porta da frente, a numeração das casas que recomeça ao mudar de país, os serviços em dobro e o ônibus a partir da Bélgica.
  • Enclavedorp Baarle-Hertog-Nassau, Visit Brabant: o escritório de turismo, a localização, a rota Enclave Experience e os passeios guiados.