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Monsanto, em Portugal: a vila construída entre pedras
Em Monsanto, as casas usam rochas de granito como parede e até como telhado. Veja por que a vila é assim, a história do título de 1938 e como visitar.
Monsanto é uma vila do interior de Portugal, no concelho de Idanha-a-Nova, perto da fronteira com a Espanha, onde as casas foram encaixadas entre blocos gigantes de granito. Em vez de tirar as pedras do caminho, os moradores as usaram. Uma rocha vira parede, outra vira muro, e em alguns casos um único bloco faz o papel de telhado. Por isso a vila ficou conhecida pelas “casas de uma só telha”.
A vila fica a 758 metros de altitude, num morro que se ergue de repente no meio da planície da Beira Baixa. Tem castelo templário, ruas que são praticamente escadas e um título curioso: em 1938, foi eleita “a aldeia mais portuguesa de Portugal”.
Por que as casas ficam entre as pedras
O morro de Monsanto é coberto de blocos arredondados de granito, alguns do tamanho de uma casa. Construir ali exigia uma escolha, e a explicação mais simples é prática. Remover rochas desse porte com as ferramentas de séculos atrás era um trabalho enorme; aproveitá-las poupava pedra, argamassa e esforço.
O resultado é uma arquitetura em que fica difícil dizer onde termina a natureza e começa a obra. O site oficial de turismo de Portugal descreve assim: a povoação se desenvolve pela encosta usando os blocos de granito como paredes, e às vezes um único bloco serve de cobertura. Subindo em direção ao castelo, dá para ver casas com uma rocha apoiada sobre o telhado e portas abertas direto na pedra.
O granito também explica a cor da vila. Quase tudo é cinza, das casas às calçadas, o que deixa as janelas e portas pintadas ainda mais visíveis.
Um morro disputado desde a Idade Média
A posição, no alto de um morro isolado, sempre teve valor militar. Segundo a rede das Aldeias Históricas de Portugal, D. Afonso Henriques, o primeiro rei português, conquistou Monsanto dos mouros e a doou à Ordem dos Templários em 1165. O mestre templário Gualdim Pais mandou construir o castelo. A vila recebeu foral em 1174, confirmado pelos reis seguintes, e D. Manuel I deu novo foral em 1510.
O castelo resistiu a cercos durante séculos, mas não a um acidente. Em 1815, um raio atingiu o paiol de munições e a explosão destruiu boa parte da fortaleza. O que se vê hoje são muralhas e ruínas no topo do morro, com vista para a planície em volta.
O título de 1938
Em 1938, o Secretariado de Propaganda Nacional, órgão do Estado Novo de Salazar dirigido por António Ferro, organizou um concurso para escolher “a aldeia mais portuguesa de Portugal”. O objetivo declarado era encontrar o lugar que tivesse resistido melhor às influências estrangeiras e conservado com mais pureza os traços tradicionais. Na final, em 11 de outubro, Monsanto venceu Carrazedo de Bucos e Paul e ganhou o troféu do Galo de Prata, que em réplica ainda está no alto da Torre do Relógio, também chamada de Torre de Lucano.
O concurso nunca teve uma segunda edição, e o título ficou. Vale olhar para ele com o contexto: era um concurso de propaganda de uma ditadura, com uma ideia bem estreita do que era “ser português”. Mesmo assim, ele ajudou a colocar a vila no mapa. Em 1995, Monsanto entrou na rede das Aldeias Históricas de Portugal.
Uma vila que perdeu moradores
Os números do censo mostram o outro lado. A antiga freguesia de Monsanto tinha 3.846 habitantes em 1950 e 829 em 2011, segundo o Instituto Nacional de Estatística. É a história de boa parte do interior português, que se esvaziou com a migração para as cidades e para o exterior. Em 2013, a freguesia foi unida à de Idanha-a-Velha.
Para o visitante, isso significa uma vila bonita e silenciosa, com muitas casas fechadas ou convertidas em hospedagem. Visitar e dormir lá, em vez de passar só algumas horas, faz diferença para quem mora na vila.
Na prática
- Vá de carro. Monsanto fica no interior e o transporte público até lá é limitado. A cidade grande mais próxima é Castelo Branco.
- Use sapato fechado e confortável. As ruas são íngremes, de pedra, e a subida até o castelo é puxada.
- Suba no fim da tarde. Para mim, o pôr do sol visto do castelo é a melhor hora da visita.
- Programe-se para 3 de maio. A Festa da Divina Santa Cruz acontece nessa data ou no domingo seguinte, com cortejo, adufes e as marafonas, bonecas de pano tradicionais da região.
- Combine com outras aldeias. A vizinha Idanha-a-Velha também faz parte da rede de Aldeias Históricas e fica perto.
Monsanto não é uma cidade-museu montada para turista. É uma solução prática de gente que precisava morar num morro de pedras e decidiu não brigar com elas. Quem gosta de lugares assim pode ler também sobre as casas de 1 euro na Itália, outra tentativa de segurar moradores em vilas que se esvaziaram.
Perguntas frequentes
Onde fica Monsanto?
No concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, na região Centro de Portugal, perto da fronteira com a Espanha. Não confunda com o parque de Monsanto, em Lisboa.
O que são as casas de uma só telha?
São casas em que um único bloco de granito cobre o telhado, ou parte dele. O nome é uma brincadeira: a “telha” é uma rocha inteira.
Por que Monsanto é chamada de aldeia mais portuguesa de Portugal?
Porque venceu um concurso com esse nome em 1938, organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo. O concurso nunca foi repetido.
Dá para visitar Monsanto em um bate-volta de Lisboa?
Dá, mas é cansativo, porque a viagem de carro leva algumas horas em cada sentido. Dormir na vila ou na região deixa a visita mais tranquila.
Fontes
- Monsanto, Aldeias Históricas de Portugal: a doação aos Templários em 1165, o castelo de Gualdim Pais, os forais, a altitude, o título de 1938, a entrada na rede em 1995 e a festa de maio.
- Monsanto, Visit Portugal, site oficial de turismo: a localização, as casas entre os blocos de granito, a Torre de Lucano e a festa de 3 de maio.
- Aldeia de Monsanto ou “Monte Santo”, Turismo Centro de Portugal: a origem do nome, as casas de uma só telha, as marafonas e a data da festa.
- O dia em que a Aldeia Histórica de Monsanto se tornou também a Aldeia Mais Portuguesa, Aldeias Históricas de Portugal, 2019: o concurso do Secretariado de Propaganda Nacional, seus critérios, os finalistas e a data da premiação.
- Monsanto (Idanha-a-Nova), Wikipedia: a explosão do paiol em 1815, a população nos censos do INE e a união de freguesias em 2013.