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Casas de 1 euro na Itália: regras, custos e se vale a pena

As casas por 1 euro existem, mas o preço é só o começo. O que as cidades exigem, quanto a reforma costuma custar e o que conferir antes de comprar.

7 min de leitura

Casas de pedra de Castelmola, cidade construída no alto de um morro na Sicília
Foto de Andras Kovacs no Unsplash

A manchete aparece de tempos em tempos e sempre faz sucesso: uma cidade italiana está vendendo casas por 1 euro. A oferta é verdadeira. Dezenas de municípios, principalmente na Sicília, na Sardenha e em regiões montanhosas do centro e do sul, já colocaram imóveis à venda por esse valor. Sambuca di Sicilia virou notícia no mundo inteiro em 2019, e nomes como Mussomeli, Salemi e Ollolai aparecem com frequência nas listas.

O que a manchete não conta é que o euro é a parte mais barata do negócio.

Por que uma cidade venderia casas por 1 euro

Essas cidades perderam gente durante décadas. Os jovens foram estudar e trabalhar nas cidades grandes ou em outros países, os mais velhos morreram, e as casas do centro histórico ficaram fechadas. Muitas estão em mau estado, algumas com risco de desabar, e os herdeiros, quando existem, não têm interesse em reformar.

Para a prefeitura, uma casa abandonada é problema: estraga a paisagem, oferece risco e não traz morador. Vender por 1 euro é uma forma de passar o imóvel para alguém que se comprometa a recuperá-lo. Para a cidade, o valor da venda pouco importa. Interessa a obra feita, o morador novo e o movimento que vem junto.

O que costuma vir no contrato

As regras mudam de uma cidade para outra, e também mudam com o tempo. Em geral, quem compra assume compromissos parecidos com estes:

  • Apresentar um projeto de reforma num prazo curto, muitas vezes de até um ano depois da compra.
  • Concluir a obra em cerca de três anos.
  • Deixar uma garantia, em dinheiro ou como fiança bancária, que volta para o comprador quando a reforma termina. Em Sambuca di Sicilia e em Mussomeli, por exemplo, ela é de 5 mil euros. Quem não cumpre o prazo perde esse valor.
  • Pagar os custos da compra: cartório, registro e impostos, que já passam bastante de 1 euro.

Algumas cidades vão além. O edital de Sambuca de 2019 exigia que o comprador gastasse pelo menos 15 mil euros na obra. Em alguns lugares, o 1 euro é só o lance inicial de um leilão. Quando muita gente se interessa, o preço final sobe.

A conta que ninguém coloca na manchete

O custo de verdade está na reforma. São casas antigas, algumas fechadas há décadas, que podem precisar de telhado novo, instalação elétrica e hidráulica do zero e reforço na estrutura. Em Sambuca di Sicilia, segundo a agência de notícias ANSA, a previsão é gastar pelo menos 30 mil euros, e muitas obras chegam a 200 mil. O valor depende muito do estado do imóvel e das regras de preservação do centro histórico.

Também tem o tempo. Obras em cidades pequenas dependem de mão de obra local, de licenças e de uma burocracia que pode ser lenta para quem não fala italiano. Para um estrangeiro comprar imóvel na Itália, é preciso tirar o codice fiscale, o número de identificação fiscal do país.

E a conta não para quando a obra termina. Uma casa que não é a residência principal do dono paga o IMU, o imposto municipal sobre imóveis, todo ano. Somam-se contas de luz, água e gás, que muitas vezes precisam ser religadas do zero, e o seguro do imóvel. Se a casa for de férias e ficar fechada boa parte do ano, também vale reservar algum dinheiro para manutenção: umidade e telhado costumam cobrar caro de quem demora a voltar.

Nada disso quer dizer que o negócio seja ruim. Para quem quer uma casa de férias ou pretende se mudar para o interior da Itália, o total ainda pode sair bem mais barato do que comprar um imóvel pronto numa cidade conhecida. Só não é o achado que a manchete sugere.

Deu certo? O que aconteceu em Sambuca e em Mussomeli

A ideia não é nova. Segundo a ANSA, ela foi lançada em 2008 por Vittorio Sgarbi, então prefeito de Salemi, também na Sicília. O que a fez ganhar o mundo foi Sambuca di Sicilia, em 2019.

Naquele ano, Sambuca pôs à venda de uma vez 16 casas do centro histórico por 1 euro cada, com depósito de 5 mil euros e obrigação de reformar em poucos anos. A procura foi enorme, sobretudo de norte-americanos. Em 2021, veio uma segunda rodada, de casas a 2 euros, com mais 15 ou 16 imóveis. Em 2024, uma terceira, a 3 euros, também esgotou. Segundo estudos citados pela ANSA, as três rodadas somaram mais de 21 milhões de euros em reformas na cidade. Algumas casas viraram pousadas; alguns compradores americanos passam metade do ano ali.

Mussomeli, na província de Caltanissetta, seguiu outro modelo. Numa entrevista ao portal idealista, em abril de 2024, o prefeito Giuseppe Catania contou que já tinham sido concluídas cerca de 450 vendas. Um detalhe importante: ali as casas não são da prefeitura, e sim de proprietários particulares. A prefeitura funciona como intermediária e divulga os imóveis num site próprio.

Os dois casos mostram que o programa pode funcionar para a cidade. Para o comprador, o resultado depende da conta da reforma e do que ele espera da vida numa cidade pequena.

Antes de se animar

Se a ideia te interessou, alguns passos ajudam a não cair em frustração:

  1. Procure o site oficial da prefeitura (o comune) da cidade. É lá que ficam as regras atualizadas, os prazos e a lista de imóveis disponíveis. Sites de terceiros costumam repetir informações antigas.
  2. Visite antes de fazer qualquer oferta. Foto de fachada não mostra rachadura no teto.
  3. Peça um orçamento de reforma a um arquiteto ou geometra local, o profissional que cuida desse tipo de avaliação na Itália.
  4. Pense no depois. Cidades pequenas têm pouca oferta de serviço, transporte limitado e, às vezes, pouca gente no inverno. Isso pode ser o atrativo ou o problema, dependendo do que você procura.

Perguntas frequentes

As casas de 1 euro na Itália são verdadeiras?

São. Dezenas de cidades italianas já venderam imóveis por esse valor, mas o comprador assume a obrigação de reformar, e a obra custa muito mais que o preço da casa.

Estrangeiro pode comprar casa de 1 euro na Itália?

Pode. É preciso tirar o codice fiscale, o número de identificação fiscal italiano, e seguir as regras do edital da cidade.

Quanto custa reformar uma casa de 1 euro?

Depende do imóvel. Em Sambuca di Sicilia, a previsão é de pelo menos 30 mil euros, e muitas obras chegam a 200 mil, segundo a ANSA.

Qual é o prazo para reformar?

Costuma ser de cerca de três anos, com um projeto apresentado no primeiro ano. Quem não cumpre perde a garantia depositada, que em Sambuca e Mussomeli é de 5 mil euros.

Onde encontrar casas de 1 euro na Itália?

No site oficial de cada prefeitura, o comune, que publica os editais e a lista de imóveis. Em Mussomeli, a prefeitura divulga os imóveis num site próprio.

A casa de 1 euro existe. Na prática, ela é um contrato de reforma com uma cidade que quer voltar a ter vizinhos.

Fontes