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Casas de 1 euro na Itália: regras, custos e se vale a pena
As casas por 1 euro existem, mas o preço é só o começo. O que as cidades exigem, quanto a reforma costuma custar e o que conferir antes de comprar.
A manchete aparece de tempos em tempos e sempre faz sucesso: uma cidade italiana está vendendo casas por 1 euro. A oferta é verdadeira. Dezenas de municípios, principalmente na Sicília, na Sardenha e em regiões montanhosas do centro e do sul, já colocaram imóveis à venda por esse valor. Sambuca di Sicilia virou notícia no mundo inteiro em 2019, e nomes como Mussomeli, Salemi e Ollolai aparecem com frequência nas listas.
O que a manchete não conta é que o euro é a parte mais barata do negócio.
Por que uma cidade venderia casas por 1 euro
Essas cidades perderam gente durante décadas. Os jovens foram estudar e trabalhar nas cidades grandes ou em outros países, os mais velhos morreram, e as casas do centro histórico ficaram fechadas. Muitas estão em mau estado, algumas com risco de desabar, e os herdeiros, quando existem, não têm interesse em reformar.
Para a prefeitura, uma casa abandonada é problema: estraga a paisagem, oferece risco e não traz morador. Vender por 1 euro é uma forma de passar o imóvel para alguém que se comprometa a recuperá-lo. Para a cidade, o valor da venda pouco importa. Interessa a obra feita, o morador novo e o movimento que vem junto.
O que costuma vir no contrato
As regras mudam de uma cidade para outra, e também mudam com o tempo. Em geral, quem compra assume compromissos parecidos com estes:
- Apresentar um projeto de reforma num prazo curto, muitas vezes de até um ano depois da compra.
- Concluir a obra em cerca de três anos.
- Deixar uma garantia, em dinheiro ou como fiança bancária, que volta para o comprador quando a reforma termina. Em Sambuca di Sicilia e em Mussomeli, por exemplo, ela é de 5 mil euros. Quem não cumpre o prazo perde esse valor.
- Pagar os custos da compra: cartório, registro e impostos, que já passam bastante de 1 euro.
Algumas cidades vão além. O edital de Sambuca de 2019 exigia que o comprador gastasse pelo menos 15 mil euros na obra. Em alguns lugares, o 1 euro é só o lance inicial de um leilão. Quando muita gente se interessa, o preço final sobe.
A conta que ninguém coloca na manchete
O custo de verdade está na reforma. São casas antigas, algumas fechadas há décadas, que podem precisar de telhado novo, instalação elétrica e hidráulica do zero e reforço na estrutura. Em Sambuca di Sicilia, segundo a agência de notícias ANSA, a previsão é gastar pelo menos 30 mil euros, e muitas obras chegam a 200 mil. O valor depende muito do estado do imóvel e das regras de preservação do centro histórico.
Também tem o tempo. Obras em cidades pequenas dependem de mão de obra local, de licenças e de uma burocracia que pode ser lenta para quem não fala italiano. Para um estrangeiro comprar imóvel na Itália, é preciso tirar o codice fiscale, o número de identificação fiscal do país.
E a conta não para quando a obra termina. Uma casa que não é a residência principal do dono paga o IMU, o imposto municipal sobre imóveis, todo ano. Somam-se contas de luz, água e gás, que muitas vezes precisam ser religadas do zero, e o seguro do imóvel. Se a casa for de férias e ficar fechada boa parte do ano, também vale reservar algum dinheiro para manutenção: umidade e telhado costumam cobrar caro de quem demora a voltar.
Nada disso quer dizer que o negócio seja ruim. Para quem quer uma casa de férias ou pretende se mudar para o interior da Itália, o total ainda pode sair bem mais barato do que comprar um imóvel pronto numa cidade conhecida. Só não é o achado que a manchete sugere.
Deu certo? O que aconteceu em Sambuca e em Mussomeli
A ideia não é nova. Segundo a ANSA, ela foi lançada em 2008 por Vittorio Sgarbi, então prefeito de Salemi, também na Sicília. O que a fez ganhar o mundo foi Sambuca di Sicilia, em 2019.
Naquele ano, Sambuca pôs à venda de uma vez 16 casas do centro histórico por 1 euro cada, com depósito de 5 mil euros e obrigação de reformar em poucos anos. A procura foi enorme, sobretudo de norte-americanos. Em 2021, veio uma segunda rodada, de casas a 2 euros, com mais 15 ou 16 imóveis. Em 2024, uma terceira, a 3 euros, também esgotou. Segundo estudos citados pela ANSA, as três rodadas somaram mais de 21 milhões de euros em reformas na cidade. Algumas casas viraram pousadas; alguns compradores americanos passam metade do ano ali.
Mussomeli, na província de Caltanissetta, seguiu outro modelo. Numa entrevista ao portal idealista, em abril de 2024, o prefeito Giuseppe Catania contou que já tinham sido concluídas cerca de 450 vendas. Um detalhe importante: ali as casas não são da prefeitura, e sim de proprietários particulares. A prefeitura funciona como intermediária e divulga os imóveis num site próprio.
Os dois casos mostram que o programa pode funcionar para a cidade. Para o comprador, o resultado depende da conta da reforma e do que ele espera da vida numa cidade pequena.
Antes de se animar
Se a ideia te interessou, alguns passos ajudam a não cair em frustração:
- Procure o site oficial da prefeitura (o comune) da cidade. É lá que ficam as regras atualizadas, os prazos e a lista de imóveis disponíveis. Sites de terceiros costumam repetir informações antigas.
- Visite antes de fazer qualquer oferta. Foto de fachada não mostra rachadura no teto.
- Peça um orçamento de reforma a um arquiteto ou geometra local, o profissional que cuida desse tipo de avaliação na Itália.
- Pense no depois. Cidades pequenas têm pouca oferta de serviço, transporte limitado e, às vezes, pouca gente no inverno. Isso pode ser o atrativo ou o problema, dependendo do que você procura.
Perguntas frequentes
As casas de 1 euro na Itália são verdadeiras?
São. Dezenas de cidades italianas já venderam imóveis por esse valor, mas o comprador assume a obrigação de reformar, e a obra custa muito mais que o preço da casa.
Estrangeiro pode comprar casa de 1 euro na Itália?
Pode. É preciso tirar o codice fiscale, o número de identificação fiscal italiano, e seguir as regras do edital da cidade.
Quanto custa reformar uma casa de 1 euro?
Depende do imóvel. Em Sambuca di Sicilia, a previsão é de pelo menos 30 mil euros, e muitas obras chegam a 200 mil, segundo a ANSA.
Qual é o prazo para reformar?
Costuma ser de cerca de três anos, com um projeto apresentado no primeiro ano. Quem não cumpre perde a garantia depositada, que em Sambuca e Mussomeli é de 5 mil euros.
Onde encontrar casas de 1 euro na Itália?
No site oficial de cada prefeitura, o comune, que publica os editais e a lista de imóveis. Em Mussomeli, a prefeitura divulga os imóveis num site próprio.
A casa de 1 euro existe. Na prática, ela é um contrato de reforma com uma cidade que quer voltar a ter vizinhos.
Fontes
- Le vendite delle “case a 1 euro” funzionano, Il Post, 2019: as condições do edital de Sambuca di Sicilia (caução de 5 mil euros, obra mínima de 15 mil e prazo de três anos).
- Case a 1 euro in Italia: guida completa 2026 per stranieri, Impatria, 2026: garantias, prazos e projeto de reforma em Mussomeli, Sambuca e outras cidades.
- A Sambuca di Sicilia tutti pazzi per le case a 1 euro, ANSA, 26 de junho de 2025: a origem da ideia em Salemi, as três rodadas de Sambuca, os 21 milhões de euros em reformas e o custo das obras.
- Case a 1 euro a Mussomeli: la ricetta vincente per rilanciare il paese siciliano, idealista, entrevista de abril de 2024 republicada em maio de 2025: as cerca de 450 vendas em Mussomeli e o papel da prefeitura.
- Mini guida codice fiscale per stranieri, Agenzia delle Entrate: como estrangeiros obtêm o codice fiscale.
- IMU: abitazione principale, Dipartimento delle Finanze: a isenção vale só para a residência principal.