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Na Bulgária, balançar a cabeça para os lados quer dizer sim

Na Bulgária, o gesto de sim e o de não são o contrário do que o brasileiro espera. Entenda de onde isso vem e como evitar mal-entendidos por lá.

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Pessoas com guarda-chuvas caminhando por uma rua de Sófia, na Bulgária
Foto de Lora Georgieva no Unsplash

Você pergunta a um garçom em Sófia se ainda dá para pedir o prato do dia. Ele balança a cabeça de um lado para o outro, com um meio sorriso, e você já começa a olhar o cardápio de novo. Não precisa: ele disse que sim. Na Bulgária, virar a cabeça para os lados é o gesto de afirmação, e o movimento para cima e para baixo significa não.

O próprio serviço comercial do governo americano, num guia para quem vai fazer negócios no país, alerta os visitantes sobre isso. E recomenda o que resolve qualquer dúvida: quando não tiver certeza, peça uma resposta em voz alta.

Um mal-entendido de 150 anos

A confusão não é nova. O linguista Roman Jakobson, num estudo de 1972 sobre os gestos de sim e não, conta que os soldados russos que estiveram na Bulgária durante a guerra contra a Turquia, em 1877 e 1878, nunca esqueceram a oposição entre os seus gestos e os dos búlgaros. Segundo ele, a troca de sinais atrapalhava as conversas e às vezes gerava mal-entendidos irritantes.

O sistema que a maioria dos brasileiros conhece, o aceno para baixo como sim, é o da imensa maioria dos povos europeus, incluindo germânicos, franceses, a maior parte dos povos latinos e os eslavos do leste e do oeste, como russos, poloneses e tchecos. Jakobson lembra que ele é comum em muitas partes do mundo, mas não é universal. O búlgaro tem paralelos em alguns grupos dos Bálcãs e do Oriente Próximo.

Não é só o gesto trocado

Jakobson mostrou que o "não" búlgaro não é exatamente o nosso aceno de sim. O nosso sim começa com a cabeça indo para a frente e para baixo, como numa reverência, e volta. O não búlgaro começa com a cabeça indo para trás, para longe de quem fala, e depois volta à posição normal. Quando o gesto é repetido várias vezes, a diferença se perde, e os dois ficam quase iguais para quem vê de fora.

Foi por isso, segundo Jakobson, que o nosso sistema precisou de um "não" bem diferente do "sim". O oposto natural da reverência seria jogar a cabeça para trás, mas, repetido, esse movimento se confundiria com o próprio aceno de sim. A solução foi virar o rosto para o lado, para longe de quem fala, um gesto de recusa, de corte do contato cara a cara.

O "sim" búlgaro, o de virar a cabeça de um lado para o outro, também tem lógica, segundo o linguista. Ao girar a cabeça, geralmente começando para a direita, a pessoa oferece o ouvido a quem está falando, um sinal de atenção e boa vontade com o que foi dito.

Já o gesto de balançar a cabeça em pêndulo, inclinando de um lado para o outro, é outra coisa: para Jakobson, ele expressa espanto, algo entre o sim e o não.

A cabeça para cima: o não de gregos e turcos

A Bulgária não é o único lugar da região em que o aceno engana o turista. Na Grécia e na Turquia, o gesto comum para "não" é levantar a cabeça, um aceno para cima. Segundo o linguista Brian Joseph, num estudo de 2000 citado pelo Language Log, esse gesto aparece também em comunidades de língua árabe e em partes da África.

A origem pode ser antiga. Joseph cita uma pesquisa de 1979 do zoólogo Desmond Morris e colegas, que mapeou gestos europeus e sugere que o aceno para cima continua um gesto da Grécia Antiga. Na Europa, ele aparece na Grécia, na Turquia e em áreas do sul da Itália que foram colônias gregas, a antiga Magna Grécia. Dentro da Itália, a fronteira entre o gesto grego e o gesto europeu ocidental coincidiria com a antiga divisa entre a Campânia grega e o território etrusco.

Para o viajante, a lição é simples: nos Bálcãs e no Mediterrâneo oriental, um movimento de cabeça que parece "sim" pode ser "não".

E a lenda dos otomanos?

Na Bulgária, circula uma explicação mais romântica. O país ficou cinco séculos sob o domínio do Império Otomano, e a lenda diz que, quando os governantes queriam obrigar os búlgaros a trocar o cristianismo pelo islamismo, eles passaram a inverter os gestos: acenavam com a cabeça, como se aceitassem, mas por dentro diziam não.

A história é bonita, mas é uma lenda, sem registro que a comprove. Jakobson preferiu buscar a explicação na forma dos próprios movimentos.

Como evitar o mal-entendido na prática

O maior risco não é entender errado o búlgaro. É ser entendido errado. Quando um vendedor pergunta se você quer sacola e você acena para baixo, do jeito brasileiro, ele pode entender "não". A situação piora quando os dois lados tentam se adaptar ao mesmo tempo: o búlgaro, acostumado com turistas, usa o gesto ocidental, e o turista, que leu sobre o assunto, usa o búlgaro.

Por isso, o conselho do guia americano é o mais seguro: diante da dúvida, fale. As duas palavras mais úteis são curtas. "Da" quer dizer sim, e "ne" quer dizer não.

Na prática

  • Não confie só no gesto. Diante de um movimento de cabeça que você não entendeu, peça a resposta falada.
  • Aprenda as duas palavras em búlgaro: "da" quer dizer sim e "ne" quer dizer não.
  • Nas cidades grandes, espere os dois sistemas. Com o inglês mais difundido, muitos búlgaros usam os gestos do jeito ocidental.
  • Cuidado com o seu próprio aceno. Um sim com a cabeça pode ser lido como não, e o contrário também.
  • Na Grécia e na Turquia, preste atenção no aceno para cima. Ele costuma querer dizer não.

Perguntas frequentes

Na Bulgária, como se diz sim com a cabeça?

Virando a cabeça de um lado para o outro. O aceno para cima e para baixo, que para o brasileiro é sim, na Bulgária quer dizer não.

Por que os búlgaros usam os gestos ao contrário?

O linguista Roman Jakobson explicou a diferença pela forma dos movimentos: o não búlgaro começa jogando a cabeça para trás, e o sim de girar a cabeça seria um jeito de oferecer o ouvido a quem fala. A história de que o costume nasceu contra os otomanos é uma lenda.

Todos os búlgaros fazem o gesto ao contrário?

Não necessariamente. Muitos, principalmente nas cidades e acostumados a estrangeiros, usam o gesto ocidental. Por isso, a recomendação é pedir a resposta em voz alta.

Em que outros países o aceno de cabeça é diferente?

Na Grécia e na Turquia, levantar a cabeça é o gesto comum para não. Ele aparece também em comunidades de língua árabe e em partes da África.

Gestos parecem universais até a primeira viagem. Na Suíça, o mal-entendido é outro: a regra que todo mundo repete sobre não dar descarga à noite nunca existiu como lei.

Fontes

  • Bulgaria – Business Travel, International Trade Administration, governo dos Estados Unidos: o gesto de sim e de não e a recomendação de pedir resposta falada.
  • Nods, Language Log, Universidade da Pensilvânia, 2018: trechos de "Motor signs for 'Yes' and 'No'", de Roman Jakobson (Language in Society, 1972), sobre os soldados russos em 1877 e 1878, os sistemas de gestos na Europa e a forma do sim e do não búlgaros, além do trecho de Brian Joseph (2000) sobre o aceno para cima na Grécia, na Turquia e no sul da Itália.
  • Why Do Bulgarians Shake Their Heads To Say Yes?, Culture Trip, 2017: a lenda do domínio otomano.