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Sobrenomes na Islândia: por que não há nome de família

Na Islândia, o sobrenome é o nome do pai ou da mãe mais “son” ou “dóttir”. Veja como funciona, o que a lei exige e por que a lista usa o primeiro nome.

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Vista aérea de prédios e casas de uma cidade islandesa em dia claro
Foto de Einar H. Reynis no Unsplash

Na Islândia, a maioria das pessoas não tem sobrenome de família. O que aparece no fim do nome é o nome do pai (ou, às vezes, da mãe) seguido de “son”, filho, ou “dóttir”, filha. Um homem chamado Jón Einarsson tem um filho, Ólafur. O sobrenome de Ólafur é Jónsson: filho de Jón. Se Ólafur tiver uma filha chamada Sigrún, ela será Sigrún Ólafsdóttir.

O resultado é que irmãos de pais diferentes podem ter sobrenomes diferentes, e pai e filho nunca dividem o mesmo. Para quem chega à Islândia, a primeira surpresa vem na hora de procurar alguém na lista telefônica: ela é organizada pelo primeiro nome.

Como o sobrenome é formado

A regra é simples. Pega-se o primeiro nome do pai no genitivo, a forma que indica posse em islandês, e acrescenta-se o sufixo. Em português seria algo como “Jón-do-filho”. O genitivo muda a terminação do nome: Einar vira Einarsson, Magnús vira Magnússon, Helga vira Helgadóttir.

Existe também o matronímico, formado com o nome da mãe. Ólafur, filho de Bryndís, pode ser Ólafur Bryndísarson. Algumas pessoas usam o nome do pai e o da mãe juntos, como no caso do político Dagur Bergþóruson Eggertsson. Segundo a Wikipédia, há ainda quem use o segundo nome de um dos pais.

Segundo o Registro Nacional da Islândia, quando os pais não são casados nem vivem em união registrada e a paternidade não foi declarada, a criança recebe o sobrenome da mãe. É um detalhe prático da lei, e não uma escolha cultural: o sobrenome acompanha o que está registrado.

O sufixo “bur” e a lei de 2019

Em 2019, uma lei de autonomia de gênero abriu uma terceira opção. Quem está registrado oficialmente como não binário pode usar o sufixo “bur”, que significa “criança de”. Sigrún Ólafsdóttir, por exemplo, poderia ser Sigrún Ólafsbur. Os nomes próprios também deixaram de ser restritos por gênero, segundo a Wikipédia.

Por que a lista telefônica usa o primeiro nome

Se metade do país se chamasse Jónsson, ordenar por sobrenome não ajudaria em nada. Por isso a lista telefônica islandesa é organizada pelo primeiro nome e costuma trazer a profissão ao lado, para separar duas pessoas com o mesmo nome completo.

O costume vale para a vida diária. Os islandeses se tratam pelo primeiro nome em quase todas as situações, inclusive as formais. A Wikipédia registra que o tratamento pelo primeiro nome vale mesmo em situações formais.

E os sobrenomes de família?

Eles existem, mas são raros e têm uma história curta. Em 1913, o Parlamento islandês, o Althing, permitiu adotar sobrenomes de família. Em 1925, proibiu novas adoções. Desde então, só quem herdou o sobrenome de família pode mantê-lo.

Os números mostram como o costume era pouco difundido. Segundo a Wikipédia, havia 108 sobrenomes de família em 1855 e 297 em 1910, adotados em geral por funcionários públicos e pessoas com ensino superior. O escritor Halldór Laxness, Nobel de Literatura de 1955, é um exemplo: Laxness não é patronímico.

Parte do motivo para a mudança era prática. Em meados do século XIX, cerca de um em cada seis homens islandeses se chamava Jón, o que tornava a identificação confusa. Em 2018, os tribunais reconheceram o segundo nome do comediante e ex-prefeito de Reykjavik Jón Gnarr como sobrenome de família, uma exceção à regra.

Quem decide quais nomes existem

A Islândia também controla os nomes próprios. Para um nome entrar na lista oficial, ele precisa passar pela Comissão de Nomes Pessoais, criada em 1991. Os membros são nomeados pelo Ministério da Justiça para mandatos de quatro anos.

Segundo o portal oficial do governo islandês, o nome precisa poder receber a terminação do genitivo ou já estar consagrado pelo uso, combinar com a estrutura e a ortografia do islandês e não causar constrangimento a quem o leva. Ninguém pode ter mais de três nomes. A criança precisa ser registrada antes dos seis meses de idade, e só quem tem a guarda pode escolher o nome. A decisão da comissão não pode ser revertida por outro órgão do governo.

A lista cresce aos poucos: em janeiro de 2024, a comissão aprovou seis nomes novos, segundo o jornal Reykjavík Grapevine.

O caso Blær

Em 2013, uma menina de 15 anos chamada Blær teve o nome rejeitado pela comissão. Blær é um substantivo masculino em islandês. A mãe havia escolhido o nome por causa de uma personagem do romance “O peixe pode cantar”, de Laxness. A Justiça reverteu a decisão e a menina ficou com o nome.

Na prática

  • Ao procurar alguém, use o primeiro nome. Em reservas, contatos e documentos, o sobrenome serve mais para distinguir homônimos do que para identificar famílias.
  • Ao ser apresentado, chame a pessoa pelo primeiro nome, sem “senhor” ou “senhora”. É o normal na Islândia.
  • Pais e filhos com sobrenomes diferentes são o normal na Islândia, e não sinal de parentesco duvidoso.

Alguns islandeses que emigram acabam adotando o sobrenome do país onde moram. Outros, como o apresentador Magnus Magnusson, nascido Magnús Sigursteinsson, passam a usar como sobrenome o patronímico do pai ao se mudarem para outro país, segundo a Wikipédia.

Perguntas frequentes

Os islandeses têm sobrenome?

Têm, mas quase sempre é o nome do pai ou da mãe com o sufixo “son” ou “dóttir”. Sobrenomes de família existem, porém são poucos.

O que significa “dóttir”?

Significa filha. “Jónsdóttir” quer dizer filha de Jón. O equivalente masculino é “son”, filho.

Pais e filhos têm o mesmo sobrenome na Islândia?

Quase nunca. O sobrenome muda a cada geração, porque ele depende do nome do pai ou da mãe.

Posso dar qualquer nome a um filho na Islândia?

Não. Nomes que não constam da lista oficial precisam de aprovação da Comissão de Nomes Pessoais, e o nome precisa se encaixar na gramática islandesa.

Se você planeja uma viagem para lá, vale ler também sobre a regra de tomar banho pelado antes das piscinas e sobre os mosquitos que a Islândia não tem. Para outro exemplo de como um idioma muda o convívio, veja como a idade coreana definia o jeito de falar com as pessoas.

Fontes

  • Icelandic name, Wikipédia: a formação de patronímicos e matronímicos, a lei de 1913 e a proibição de 1925, os números de 1855 e 1910, o sufixo “bur”, o caso Blær e a exceção de Jón Gnarr.
  • Icelandic Naming Committee, Wikipédia: a criação da comissão em 1991 e os mandatos de quatro anos.
  • Name giving, Governo da Islândia (island.is): os critérios para um nome, o limite de três nomes, o prazo de seis meses e o caráter definitivo da decisão da comissão.
  • Name giving, Registros da Islândia (Þjóðskrá): a regra do sobrenome da mãe quando a paternidade não foi declarada.
  • Six names added to naming list, Reykjavík Grapevine, 29 de janeiro de 2024: os seis nomes novos aprovados.