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Gestos que mudam de sentido de um país para outro

O OK, o V da vitória, a mão aberta e o polegar para cima não querem dizer a mesma coisa em todo lugar. Veja onde cada gesto pode ofender e o que fazer.

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Mão direita de um braço estendido fazendo o sinal de polegar para cima, diante de uma parede branca
Foto de Sincerely Media no Unsplash

Em janeiro de 1992, o presidente americano George H. W. Bush passou de carro por um grupo de fazendeiros que protestavam em Canberra, na Austrália, contra os subsídios agrícolas dos Estados Unidos. Ele levantou os dedos num V, o sinal de paz e vitória. Só que a palma estava virada para ele, e na Austrália esse é um gesto ofensivo, parecido com o dedo do meio.

O episódio mostra o problema dos gestos de mão: o mesmo sinal pode ser elogio num país e insulto no vizinho, e quem viaja só descobre pela reação de quem está do outro lado. Os quatro casos abaixo são os que mais pegam o turista desprevenido.

O sinal de OK: de zero a insulto

O círculo feito com o polegar e o indicador é o gesto que mais muda de lugar para lugar. Segundo a Wikipedia, que reúne guias de etiqueta e livros sobre gestos, ele significa:

  • Japão: dinheiro, porque o círculo lembra uma moeda;
  • França: zero ou “não vale nada”, mais no sul do país, enquanto no norte o sentido de “tudo bem” é mais comum;
  • Turquia, parte do Oriente Médio, da Alemanha e da América Latina: uma referência vulgar ao ânus, usada como insulto. Na Turquia, a leitura é considerada muito ofensiva.

Uma anedota bem conhecida, repetida pela mesma enciclopédia com base num livro do consultor Roger Axtell e numa reportagem do New York Times de 1996, conta que o vice-presidente americano Richard Nixon desceu do avião no Brasil, nos anos 1950, fazendo o sinal de OK com as duas mãos para agradar ao público, e a plateia entendeu como ofensa. Como é uma história recontada e sem data exata, vale tratá-la como ilustração, não como registro.

O V da vitória e o V do insulto

O V com a palma para fora é o sinal da vitória. Foi proposto em janeiro de 1941 pelo político belga exilado Victor de Laveleye, numa transmissão da BBC para a Bélgica ocupada: o V era de victoire, em francês, e de vrijheid, “liberdade” em holandês. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill passou a usá-lo depois de um discurso de 19 de julho de 1941.

Com as costas da mão viradas para quem olha, o mesmo gesto é um insulto no Reino Unido, na Irlanda, na Austrália, na Nova Zelândia e na África do Sul. A história de que ele nasceu entre os arqueiros galeses na batalha de Azincourt, em 1415, é lenda, sem fonte histórica da época que a sustente. A primeira prova clara do gesto insultuoso na Grã-Bretanha é um filme de 1901 com um operário de uma siderúrgica de Rotherham.

Foi esse erro que Bush cometeu em 1992. Uma palestra feita em 2010 no Senado australiano por um cartunista político, que estava em Canberra naquele dia, descreve a cena: Bush achava que estava fazendo o V da vitória.

A mão aberta na cara: a moutza grega

Na Grécia, esticar a mão aberta, com os dedos separados, na direção do rosto de alguém é a moutza, um dos insultos mais tradicionais do país. Quanto mais perto do rosto, mais pesado o gesto. Com as duas mãos, vira uma versão dobrada.

A origem seria bizantina. Segundo a Wikipedia, criminosos eram levados num burro, com o rosto sujo de cinza (moútzos), e o gesto imitaria esse ato de esfregar cinza na cara. A associação com ritos da Antiguidade aparece no mesmo texto como hipótese que ainda precisa de fonte melhor.

O detalhe prático é o que os gregos fazem sem perceber: ao contar até cinco, evitam abrir os dedos ou virar a palma para a frente, para a contagem não ser lida como moutza.

O polegar para cima: mais confuso do que parece

Para o brasileiro, o polegar para cima quer dizer “beleza”. Em outros lugares, o sentido muda:

  • Alemanha, França e Hungria: o polegar costuma marcar o número um na contagem, segundo um estudo de 2009 publicado no Journal of Cross-Cultural Psychology;
  • Irã: um guia de erros de viagem do jornal The Guardian, de 2007, o cita como insulto. É uma fonte de imprensa, não uma pesquisa, então vale confirmar com quem mora lá.

A origem romana também é menos certa do que o cinema faz parecer. A ideia de que o polegar para cima poupava o gladiador e o polegar para baixo o condenava não tem apoio claro nos textos antigos. O classicista Anthony Corbeill chegou a defender o contrário: o polegar levantado seria o sinal de matar, e o punho fechado com o polegar escondido, o de poupar. O primeiro uso positivo em inglês que o Oxford English Dictionary registra é de 1917, num livro de um soldado americano na Primeira Guerra, e o gesto se espalhou na Segunda Guerra, segundo a revista Time.

Na prática

  • Na dúvida, não faça. Em país desconhecido, troque o gesto por palavra: “tudo bem”, “obrigado”, “ótimo”.
  • Evite o OK com a mão na Turquia, no Oriente Médio e na América Latina, e o V com a palma para dentro no Reino Unido e na Austrália.
  • Na Grécia, não empurre a palma aberta na direção de alguém. Para contar até cinco, mantenha os dedos juntos ou use os dedos de lado.
  • Observe como os locais se comunicam antes de usar um gesto. Se ninguém ao redor faz o seu sinal, é melhor não ser o primeiro.
  • Peça desculpas e explique, se errar. Turistas fazem gestos errados o tempo todo, e a maioria dos locais sabe disso.

A confusão não é só de ofensa: na Bulgária, o gesto de sim e não é o contrário do nosso, e ninguém ali está sendo grosseiro.

Perguntas frequentes

O sinal de OK é ofensivo no Brasil?

Segundo a Wikipedia, ele tem leitura vulgar em boa parte da América Latina, mas o uso comum, como “tudo bem”, é muito difundido, inclusive entre brasileiros. O peso do gesto depende do contexto e de quem o recebe.

Qual é a diferença entre os dois V?

Com a palma para fora, é vitória ou paz. Com as costas da mão viradas para a pessoa, é um insulto no Reino Unido, na Irlanda, na Austrália, na Nova Zelândia e na África do Sul.

O que é a moutza?

É o gesto grego de esticar a mão aberta, com os dedos separados, na direção do rosto de alguém. É um insulto tradicional, e a origem mais citada é a punição bizantina de sujar o rosto de criminosos com cinza.

O polegar para cima é ofensivo em algum lugar?

Em alguns países, sim. Um guia de viagem do The Guardian de 2007 cita o Irã, e há relatos de leitura ofensiva em partes do Oriente Médio. Como a imprensa de viagem nem sempre confirma, o mais seguro é trocar o gesto por uma palavra.

Fontes

  • OK gesture, Wikipedia: os sentidos do OK no Japão, na França, na Turquia e na América Latina, e a anedota de Nixon com base em Axtell (1999) e no New York Times de 18 de agosto de 1996.
  • V sign, Wikipedia: a diferença entre as duas palmas, Laveleye em 1941, Churchill, a lenda de Azincourt, o filme de 1901 e o caso de Bush em 1992.
  • The Senate and the Cartoonist, Senado da Austrália, Papers on Parliament nº 55: a palestra de 2010 que descreve o gesto de Bush em Canberra.
  • Moutza, Wikipedia: o gesto grego, a origem bizantina e a contagem até cinco.
  • Thumb signal, Wikipedia: a contagem com o polegar na Alemanha, na França e na Hungria, e o Irã.
  • Thumbs up and thumbs down history, Time: a lenda dos gladiadores, o registro de 1917 e a popularização na Segunda Guerra.

Os sentidos dos gestos variam entre regiões, gerações e contextos. Os guias de viagem são úteis, mas nenhum deles substitui observar como a pessoa ao lado se comunica.