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Por que a China tem um só fuso horário

A China cabe em cinco fusos, mas o relógio marca a hora de Pequim no país todo. No oeste, o sol nasce após as 10h no inverno e muitos usam outra hora.

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Mausoléu de Afaq Khoja, em Kashgar, no extremo oeste da China, com minaretes revestidos de azulejos verdes sob céu azul
Foto de ダモ リ no Unsplash

No dia 1º de janeiro, o sol nasce às 6h54 em Fuyuan, a cidade mais a leste da China, na fronteira com a Rússia. No mesmo dia, em Akto, no extremo oeste, ele só aparece às 10h16. As duas cidades usam o mesmo relógio: a hora de Pequim, oito horas à frente do horário universal (UTC+8).

A resposta curta é política. O território chinês se estende por quase cinco fusos geográficos, e o país chegou a ter cinco zonas oficiais. Depois da vitória comunista na guerra civil, em 1949, o governo unificou tudo na hora da capital, e é assim até hoje. A China é o maior país do mundo com um único fuso oficial.

A China já teve cinco fusos

A divisão não é invenção de estrangeiro. Em 1918, o Observatório Central do governo republicano propôs cinco zonas, com nomes próprios: Kunlun (UTC+5h30), Xinjiang-Tibete (UTC+6), Gansu-Sichuan (UTC+7), Chungyuan (UTC+8) e Changbai (UTC+8h30).

O sistema demorou a pegar. Nos anos 1930, cada região usava a hora que achava melhor. Em março de 1939, uma conferência em Chongqing decidiu adotar as cinco zonas, mas mandou o país inteiro seguir a hora de Gansu-Sichuan (UTC+7) enquanto durasse a guerra contra o Japão. Depois de 1945, as cinco zonas voltaram, e uma versão revisada foi anunciada em 1947.

Durou pouco. Entre 1949 e 1950, com o fim da guerra civil, os governos regionais sob o Partido Comunista passaram para a hora de Pequim. Só Xinjiang e o Tibete ficaram de fora por um tempo. A regra veio com a troca de regime e nunca foi revertida.

Como é viver com o relógio fora do sol

No leste, o efeito é o inverso do que se imagina. Em Fuyuan, no dia 1º de julho, o sol nasce às 3h05 e se põe às 19h08. No oeste, a conta vira: em Akto, no mesmo dia, ele nasce às 7h34 e só se põe às 22h26.

O Tibete, que também fica muito a oeste de Pequim, usa oficialmente a hora da capital. Em Zanda, no oeste tibetano, o sol nasce às 9h40 no primeiro dia do ano.

A China também não tem horário de verão. O país testou a mudança entre 1986 e 1991 e desistiu.

Xinjiang: duas horas convivendo na mesma cidade

Na região autônoma de Xinjiang, no noroeste, funciona na prática um segundo relógio: a hora de Xinjiang, ou de Urumqi, duas horas atrás de Pequim (UTC+6), a mesma do vizinho Quirguistão.

Em fevereiro de 1986, o governo central autorizou essa hora para uso civil na região, mantendo a de Pequim para o exército, as ferrovias, a aviação e as telecomunicações. A divisão acabou seguindo linhas étnicas. A maior parte da população han segue a hora de Pequim; a maior parte dos uigures e de outros grupos usa a hora de Xinjiang.

Isso obriga as pessoas a especificar, a cada compromisso, de qual hora estão falando. A TV de Xinjiang programa o canal em mandarim pela hora de Pequim e os canais em uigur e cazaque pela hora local. Lojas e repartições costumam abrir das 10h às 19h na hora de Pequim, o que equivale às 8h e às 17h na hora local. Numa reportagem de 2016, o New York Times ouviu uma pessoa da limpeza urbana de Urumqi que resumiu a sensação: os moradores deviam ser os únicos do mundo a jantar à meia-noite.

Até o celular entra na confusão. Em 2014, uma atualização do iOS passou os aparelhos de Xinjiang para a hora local sem avisar, e despertadores programados pela hora de Pequim tocaram duas horas depois.

A escolha do relógio também tem peso político. Num relatório de 2018 sobre a repressão aos muçulmanos em Xinjiang, a Human Rights Watch registrou o depoimento de uma pessoa que contou ter visto um homem ser detido por usar a hora de Urumqi no relógio, o que teria sido visto como sinal de suspeita.

Hong Kong e Macau

As duas regiões administrativas especiais têm órgãos próprios de hora e não seguem Pequim por obrigação. Mas, como ficam no mesmo fuso geográfico, a hora é igual: UTC+8, sem horário de verão desde 1979.

Na prática

  • Viajando para o oeste da China, confirme sempre se o horário do ônibus, do tour ou do restaurante está na hora de Pequim ou na de Xinjiang. Trens e voos seguem Pequim.
  • Planeje o dia pela luz, não pelo relógio. Em Urumqi, capital de Xinjiang, o almoço costuma sair depois das 14h e restaurantes ficam abertos até de madrugada, segundo reportagem do New York Times de 2016.
  • Deixe o celular no fuso de Pequim (Asia/Shanghai) para não ser pego por uma troca automática, e anote a hora local à parte.
  • Para quem sai do Brasil, a China fica 11 horas à frente de Brasília o ano todo, já que nenhum dos dois países tem horário de verão hoje.

Perguntas frequentes

Quantos fusos horários a China tem?

Oficialmente, um: a hora de Pequim, UTC+8. Geograficamente, o país ocupa quase cinco fusos.

Por que a China usa um só fuso horário?

Porque as regiões sob o governo comunista passaram para a hora de Pequim entre 1949 e 1950, depois de décadas com várias zonas, e a regra nunca foi revista.

A que horas o sol nasce no oeste da China?

Depende da época. Em Akto, em Xinjiang, o sol nasce às 10h16 no dia 1º de janeiro, pela hora de Pequim.

O que é a hora de Xinjiang?

Uma hora local, duas horas atrás de Pequim (UTC+6), usada por boa parte da população de Xinjiang, principalmente os uigures. Transportes e órgãos oficiais seguem a hora de Pequim.

A Islândia fez o caminho contrário e escolheu um relógio adiantado em relação ao sol. A história está em por que a Islândia não muda o relógio desde 1968.

Fontes

  • Time in China, Wikipedia (com base no estudo de Guo Qingsheng, 2001, sobre as mudanças de hora na China): as cinco zonas de 1918, a conferência de 1939, a unificação de 1949-1950, o horário de verão de 1986 a 1991 e os horários do sol em Fuyuan, Zanda e Akto.
  • Xinjiang Time, Wikipedia: a autorização de 1986, o uso por grupo étnico, a TV de Xinjiang e o caso do iOS em 2014.
  • 美媒称在新疆用北京时间有困惑:10点日出 半夜吃饭, China News Service, 20 de junho de 2016, reproduzindo reportagem do New York Times de 17 de junho: o sol nascendo às 10h em Urumqi, o almoço depois das 14h, os restaurantes abertos de madrugada e o relato de quem trabalha na limpeza urbana.
  • “Eradicating Ideological Viruses”, Human Rights Watch, 9 de setembro de 2018: o depoimento sobre a detenção ligada à hora de Urumqi.