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Por que a Islândia não muda o relógio desde 1968

A Islândia usa o mesmo horário o ano todo e vive com o relógio adiantado em relação ao sol. Entenda a escolha e o que ela muda para quem visita.

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Vista aérea de Reykjavík coberta de neve em janeiro
Foto de Einar H. Reynis no Unsplash

Em Reykjavík, o sol chega ao ponto mais alto do céu por volta de 13h30, uma hora e meia depois do meio-dia que a gente aprende na escola. A explicação está numa decisão de 1968: a Islândia parou de mudar o relógio entre verão e inverno e ficou, desde então, no horário de Greenwich (UTC) o ano inteiro.

Um fuso que não combina com o mapa

Os fusos horários foram desenhados, em tese, para acompanhar o sol. Cada faixa de 15 graus de longitude corresponde a uma hora. Reykjavík fica perto dos 22 graus a oeste de Greenwich, o que, pela conta, a colocaria uma hora e meia atrás do horário de Londres.

A Islândia chegou a usar um horário mais próximo disso, com uma hora de diferença para o de Greenwich e horário de verão nos meses de sol. Em 1968, o país decidiu manter o horário de verão fixo, o ano inteiro. Na prática, isso significa viver o tempo todo com o relógio adiantado em relação ao sol.

O que muda no dia a dia

Com o relógio adiantado, o dia começa mais tarde do que o horário sugere. No inverno, perto do solstício de dezembro, o sol nasce em Reykjavík depois das 11h e se põe por volta de 15h30. São cerca de quatro horas de luz, e elas ficam deslocadas para a tarde. Quem vai para a escola ou para o trabalho às 8h faz o caminho no escuro.

No verão, o efeito se inverte. Em junho, o sol se põe perto da meia-noite e volta a nascer por volta das 3h. A noite nunca fica totalmente escura. O relógio adiantado empurra ainda mais essa claridade para o fim do dia, e a luz às 23h é parte da rotina.

Uma discussão que volta de tempos em tempos

Pesquisadores do sono islandeses defendem há anos que o horário deveria ser atrasado em uma hora, para ficar mais perto do sol. O argumento é que o corpo acorda melhor com luz de manhã, e que manhãs escuras no inverno pesam sobre o sono, principalmente o de adolescentes.

Em janeiro de 2019, o governo abriu uma consulta pública sobre o assunto. Cerca de 1.600 pessoas participaram, e 56% delas defenderam atrasar o relógio. Quem prefere manter o horário atual costuma citar a luz no fim da tarde, que muita gente valoriza, e a proximidade com o horário do Reino Unido e do resto da Europa, que facilita negócios e voos. Em 2020, o gabinete da primeira-ministra concluiu que não havia evidência suficiente para justificar a mudança, e o relógio ficou como estava.

A Islândia não é o único caso

O Brasil também parou de mudar o relógio, mas fez a escolha oposta. Em abril de 2019, o Decreto 9.772 acabou com o horário de verão brasileiro, e o país ficou com o horário padrão o ano todo. O argumento foi que a mudança já não economizava energia, porque o pico de consumo tinha migrado para a tarde. A Islândia, em 1968, fez o contrário: congelou o horário de verão.

Relógio desalinhado com o sol também é mais comum do que parece. A Espanha fica, pelo mapa, na mesma faixa de longitude do Reino Unido e de Portugal, mas usa o horário da Europa central desde 1940, quando adotou o mesmo fuso da Alemanha. Isso ajuda a explicar por que os espanhóis almoçam e jantam tão tarde, pelo menos em relação ao relógio: o sol de lá também anda atrasado.

A Rússia tentou o mesmo caminho da Islândia e desistiu. Em março de 2011, adiantou os relógios como em todo ano, mas em outubro não os atrasou de volta, o que na prática deixou o país em horário de verão permanente. Três anos depois, uma nova lei mudou a regra: em 26 de outubro de 2014, quase todo o país atrasou os relógios em uma hora e ficou no horário padrão, sem horário de verão. É o mesmo dilema que a Islândia discutiu em 2019: mais luz no fim da tarde ou mais luz de manhã.

A China vai mais longe. O país inteiro segue o horário de Pequim, embora cubra uma distância que, pela regra dos fusos, pediria cinco. No extremo oeste, na região de Xinjiang, o sol pode nascer depois das 9h no inverno, e muitos moradores usam no dia a dia um horário local, duas horas atrás do oficial.

O que isso significa para quem vai visitar

  • No inverno, planeje as atividades ao ar livre em torno do meio da tarde. A luz útil fica mais ou menos entre 11h e 15h30. Estradas, cachoeiras e trilhas ficam para esse intervalo.
  • Não se assuste com a escuridão às 10h. É normal, e cafés e museus abrem normalmente nesse horário.
  • No verão, leve uma máscara de dormir. Muitos hotéis têm cortinas grossas, mas nem todos, e o céu claro às 2h atrapalha o sono de quem não está acostumado.
  • Não precisa ajustar o relógio no meio da viagem. O horário da Islândia é o mesmo em janeiro e em julho.

Perguntas frequentes

A Islândia tem horário de verão?

Não. Desde 1968, o país usa o horário de Greenwich (UTC) o ano inteiro, sem trocar o relógio.

Qual é a diferença de horário entre a Islândia e o Brasil?

Como a Islândia não muda o relógio e o Brasil também não tem mais horário de verão, a diferença é fixa: a Islândia fica três horas à frente de Brasília o ano todo.

Quantas horas de luz tem a Islândia no inverno?

Perto do solstício de dezembro, cerca de quatro horas em Reykjavík, com o sol nascendo depois das 11h e se pondo por volta das 15h30.

Por que o sol fica a pino às 13h30 em Reykjavík?

Porque a cidade fica a uns 22 graus a oeste de Greenwich, mas usa o horário de Greenwich. Pelo mapa, deveria estar uma hora e meia atrás.

A Islândia vai mudar o horário?

Por enquanto, não. Em 2020, o governo concluiu que não havia evidência suficiente para justificar a mudança, apesar da consulta pública de 2019.

Na próxima vez que alguém disser que o sol fica a pino ao meio-dia, vale lembrar que, em Reykjavík, ele só chega lá uma hora e meia depois.

Fontes