Por que o Japão quase não tem lixeira na rua
As lixeiras sumiram de Tóquio depois do ataque com gás sarin de 1995 e a maioria nunca voltou. Entenda por quê e o que fazer com o lixo na viagem.
Quem chega a Tóquio costuma descobrir o problema no primeiro café comprado na rua. O copo acaba, a calçada está impecável e não há onde jogá-lo. A explicação tem data: em 20 de março de 1995, a seita Aum Shinrikyo espalhou gás sarin em trens do metrô de Tóquio. Depois do ataque, as lixeiras foram lacradas e retiradas das estações e de boa parte dos espaços públicos do país.
Em outras cidades que tiraram as lixeiras por segurança, elas acabaram voltando. No Japão, a maioria não voltou, e o país se acostumou a viver sem elas.
O que o ataque de 1995 mudou
Na manhã do ataque, integrantes da seita deixaram pacotes de sarin, um gás que ataca o sistema nervoso, em vagões lotados na hora do rush. Pelo menos 12 pessoas morreram e mais de mil foram intoxicadas. Para o Japão, o alvo pesava tanto quanto o número de vítimas: o metrô de Tóquio transporta milhões de pessoas por dia e é um símbolo da vida na capital.
A lixeira virou suspeita porque é o esconderijo perfeito para um pacote que ninguém nota. Por isso, os recipientes das estações foram fechados e, em seguida, removidos. A medida não foi exclusividade japonesa. Londres e Paris tiraram lixeiras das ruas depois de atentados nas décadas de 1980 e 1990, Nova York fez o mesmo no trem PATH depois de 2001, e Boston depois do atentado da maratona de 2013. A diferença é que, nesses lugares, as lixeiras acabaram voltando.
Por que elas não fizeram falta
O temor era que, sem lixeiras, as ruas ficassem sujas. Não ficaram. Os japoneses passaram a carregar o próprio lixo na bolsa até chegar em casa, onde ele é separado segundo as regras de coleta de cada cidade, que costumam dividir o descarte em várias categorias. Nem o cocô do cachorro escapa: quem passeia com o cão leva os dejetos para casa e dá a descarga no vaso.
O hábito começa cedo. Crianças japonesas limpam a própria escola todos os dias, num período reservado para isso, e a expectativa de que cada um cuide do que produz é reforçada todos os dias. O país também gera, por habitante, cerca de metade do lixo doméstico dos Estados Unidos.
A falta de lixeira mudou até os banheiros. Quando os cestos saíram dos banheiros públicos, as toalhas de papel saíram junto, para não virarem lixo no chão. Muita gente passou a andar com uma toalhinha de mão na bolsa, costume que continua comum.
As máquinas de bebida e as suas lixeiras
Se faltam lixeiras, sobram máquinas automáticas. Segundo a associação japonesa dos fabricantes de máquinas de venda automática, citada pela revista Anshin Life, o Japão tinha cerca de 3,93 milhões dessas máquinas no fim de 2023. As de bebida eram a maioria, com uns 2,22 milhões de aparelhos.
É aí que está a lixeira que o turista procura. Muitas máquinas de bebida têm, ao lado, um recipiente só para latas e garrafas. Ele existe para recolher as embalagens das bebidas vendidas ali, e não é lixeira geral: papel, embalagem de comida e copo de café não devem ir para dentro dele.
Onde as lixeiras voltaram
Aos poucos, algumas voltaram. Em 2006, a JR East recolocou lixeiras no Narita Express, o trem do aeroporto. Plataformas, parques e atrações turísticas também ganharam recipientes de novo, depois de testes. O desenho carrega a memória de 1995: são transparentes, com saco transparente por dentro, para que o conteúdo seja visto de relance, e nas estações do Tokyo Metro ficam à vista dos funcionários das catracas. Em eventos com risco maior, elas são lacradas outra vez, como aconteceu na visita de Donald Trump a Tóquio em 2019.
O que puxa essa volta é o turismo. A imprensa japonesa chegou a criar um termo para a pressão dos recordes de visitantes: kankō kōgai, ou “poluição turística”. Segundo a Time Out, 20% dos turistas ouvidos numa pesquisa do governo apontaram a falta de lixeiras como o aspecto mais incômodo de visitar o Japão. Ao mesmo tempo, as cidades cobram mais de quem suja: em 2026, o bairro de Shibuya, em Tóquio, passou a multar na hora quem joga lixo no chão, em ¥2.000.
Na prática
- Leve uma sacola pequena para o lixo do dia. É o que os japoneses fazem, e resolve quase tudo.
- Use as lojas de conveniência. Muitas têm lixeiras separadas por tipo de material, na frente ou dentro da loja. O costume é usá-las para o que você comprou ali.
- Procure os recipientes ao lado das máquinas de bebida. Muitas máquinas têm um ao lado, só para latas e garrafas. Não coloque outro tipo de lixo neles.
- Separe antes de jogar. Garrafa, lata e o resto costumam ir para lugares diferentes, inclusive no hotel.
- Ande com uma toalhinha de mão. Em muitos banheiros públicos não há toalha de papel.
- Em Shibuya, não deixe nada no chão. A multa de ¥2.000 é cobrada na hora.
Perguntas frequentes
Por que não tem lixeira na rua no Japão?
Porque elas foram retiradas de estações e espaços públicos depois do ataque com gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995. A maioria nunca voltou, e os japoneses se acostumaram a levar o lixo para casa.
Onde jogar o lixo no Japão?
Em lojas de conveniência, que costumam ter lixeiras separadas por material, nos recipientes ao lado das máquinas de bebida, só para latas e garrafas, e no hotel. O mais prático é andar com uma sacolinha para o lixo do dia.
Tem multa por jogar lixo na rua no Japão?
Em Shibuya, em Tóquio, sim: desde 2026, quem joga lixo no chão paga multa de ¥2.000 na hora.
Quantas máquinas de bebida existem no Japão?
Cerca de 2,22 milhões no fim de 2023, de um total de 3,93 milhões de máquinas de venda automática.
Se for a primeira viagem ao país, vale ler também por que a gorjeta pode constranger quem recebe e por que a maioria das ruas do Japão não tem nome. No Japão, a resposta para “onde eu jogo isso?” quase sempre é a mesma: no hotel, à noite.
Fontes
- A Terrorist Attack Led Japan to Remove All Its Trash Cans. Now They’re Making a Comeback, Pacific Standard, 2019: a retirada das lixeiras depois de 1995, os números do ataque, os casos de outras cidades, a volta das lixeiras, o desenho transparente, o termo kankō kōgai e os hábitos de descarte (incluindo o dos donos de cães, citando o Washington Post).
- Tokyo subway sarin attack, Wikipedia: data e contexto do ataque.
- 日本における自販機の数, Anshin Life, janeiro de 2025: o número de máquinas de venda automática no fim de 2023, segundo a associação japonesa do setor (JVMA).
- On-the-spot fines and higher taxes: the new rules and fees for travelling to Japan in 2026, Time Out, 2026: a multa de Shibuya e a pesquisa com turistas.